Crônicas da Cidade: A PRAÇA É DO POVO?

O grande poeta baiano Castro Alves em sua poesia “O Povo ao Poder”, nos brinda com versos geniais e cheios de patriotismo que incitam o povo a ir para as ruas para tomar suas decisões e mostrar que é o dono do seu próprio destino. Sabemos que, infelizmente, isso é uma utopia, mas nos momentos cruciais o povo, às vezes, consegue arrancar do fundo da alma atos sublimes, capazes de mudar a história.

Relembrando o Poeta dos Escravos lemos em seu poema os versos abaixo:

“A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!

Senhor!… pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu…
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos…
Deixai a terra ao Anteu”.

 

Na verdade o meu intuito ao fazer este preâmbulo, é trazer discussão para nossa cidade. Acredito que em Dias D’Ávila a frase “a praça é do povo” morre em razão dos fatos que observamos através do tempo.


Cheguei à Dias D’Ávila em 1971. Naquela época não havia praça; apenas um brejo, cheio de minadouros de água e cobras, tanto as venenosas jararacuçus quanto uma sucuri de mais de trinta quilos capturada quando foi feita a roçagem do matagal.

Nesta época, o administrador da Estância (Dias D’Ávila ainda era estância hidromineral), o velho Viana que foi “importado” de Itaparica para embelezar a vila, resolveu fazer do brejo uma praça colocando até TV em uma torre, que era ligada das dezoito às vinte e duas horas.

Essa praça durou até 1986, quando tomou posse Ayrton Carlos Nunes, primeiro prefeito da cidade. Ayrton remodelou-a construindo um coreto e calçando-a com pedras portuguesas no lugar dos caminhos de areia existentes; ela ganhou bancos de concreto ofertados pelo comércio e foi rebatizada como praça ACM (antes era Camile Torrend). Em 1989, Ditinho mandou fazer uma quadra que, durante seu mandato foi, praticamente o único recanto de lazer esportivo da cidade.


Na era Cajado, logo na primeira gestão de Andreia, a praça ganhou chafariz e canteiros novos e, com isso foi fechada prejudicando novamente os comerciantes que viviam dos negócios ali desenvolvidos; Américo também a remodelou com obras, modificando a fonte luminosa e introduzindo outros equipamentos, como o parquinho, por exemplo, e daí os comerciantes penaram nova recessão! Veio Andreia em outro mandato e, adivinhe… outra reforma! Desta vez construiu-se o estacionamento; na segunda gestão consecutiva, pasmem: mais outra!.. Nessa última reforma a obra ficou pela metade, mas poderia ter sido terminada, não fosse a tal política personalista…

A primeira medida do governo de Jussara foi criar uma CPI para investigar os gastos da administração anterior e a praça ficou mais uma vez “ao Deus dará” com os comerciantes chupando o dedo. A CPI não deu em nada e a praça foi fechada de novo para receber a reforma da administração atual e nesse estado já se encontra somando-se os dois períodos, há mais de dois anos sem cumprir o seu papel.

Vale dizer que tais reformas não foram nunca catalogadas como prioridades, mas apenas vaidades, pois cada um quer imprimir o seu selo pessoal, dando um cunho particular ao seu mandato. Se fosse feita uma enquete com a população nas épocas, inclusive hoje, com certeza veríamos uma tremenda rejeição às reformas.

O que parece é que a praça não é do povo, mas sim dos governantes. Hoje temos através dos sucessivos mandatos as praças do Ayrton, do Ditinho, as três da Andreia, do Américo e agora a da Jussara. Como cada um deles passa cerca de um ano e meio com o local fechado, significa que nos últimos vinte anos a praça permaneceu mais de dez sem cumprir a sua finalidade principal e o povo bem longe dela, o que faria o espírito de Castro Alves dar cambalhotas em seu túmulo.

Concluímos assim que, em Dias D’Ávila a praça, infelizmente, não é do povo e nosso céu está mais para urubu do que para condor. Rogamos encarecidamente aos nossos governantes que parem de reformas inuteis! Isso está me parecendo mais um concurso para ver quem vence no quesito beleza, originalidade, fantasia e adereços, e muitos outros mais. Será que dá samba?

Ou será que existem outros propósitos fora de nosso alcance?

 

P0r Fernando Gimeno

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