Nós o veneramos, todo poderoso Whatsapp!

“Menino, você tem certeza do que está dizendo? Cuidado que mentir é feio e Deus castiga.”

Essa frase foi, sem dúvida, uma das mais presentes na infância de milhões de brasileiros. Os pais sempre prezaram pela verdade nas palavras que ouviam de seus filhos, e muitos procuravam obter a maior quantidade de informações possíveis sobre o que ouvia de suas crias. Em caso de uma mentira descoberta, o mentiroso, pego em flagrante delito, descobria de uma forma dolorosa que não era só Deus quem punia aqueles que faltavam com a verdade.

Atualmente, em meio ao crescente avanço das tecnologias da informação, os mentirosos migraram para o mundo digital e conseguiram dois fortíssimos aliados para difundir suas inverdades em gigantesca escala; o desinteresse do grande público pela verdade e o Whatsapp.

Desde que foi lançado, em 2009, o aplicativo de mensagens Whatsapp vem ganhando uma considerável quantidade de usuários a cada dia. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo usufrui desse poderoso comunicador instantâneo. E sendo tendência global, o aplicativo caiu nas graças dos usuários tupiniquins.

Mas que isso. Aqui, o Whatsapp virou uma espécie de todo poderoso imperador da vontade de muitos de seus usuários. Basta alguém publicar uma informação com o pedido para que esta seja compartilhada e em minutos essa, que em muitos casos já nasce mentirosa, ganha milhares de variações diferentes. Nomes de pessoas, datas, localização e números de telefones são adicionados, alterados ou suprimidos de acordo com a vontade de quem recebeu a informação e agora quer repassa-la.

Muitos, acredito eu, repassam as informações com o intuito de ajudar, mas, até a necessidade de fazer o bem deve ser policiada, pois, pode ter efeitos opostos à vontade inicial. São inúmeros casos e relatos de pessoas que procuram a justiça diariamente solicitando proteção policial, pois, tem suas imagens amplamente divulgadas como sendo autores de inúmeros crimes. Até que seja provada a inocência e os compartilhamentos cessem, o estrago deixado em suas vidas é quase irremediável. E em alguns casos, os supostos criminosos, julgados e condenados sem direito à defesa pelos tribunais virtuais do Whatsapp, são vítimas de linchamentos e execuções filmadas, como foi o caso do senhor Geraldo dos Santos, de 46 anos, que foi esquartejado vivo na cidade de Girau do Ponciano (AL), em outubro do corrente ano, por um grupo de pessoas que, ao confessarem o crime, informaram a polícia civil alagoana que Geraldo era responsável pela morte de duas crianças e por isso o mataram. Após a polícia realizar investigação sobre o caso, foi descoberto que o caso do duplo infanticídio fora praticado em outro estado e que o assassino já se encontrava preso. A associação da imagem de Geraldo com a cena de um crime, aliada a informação que ele era o autor deste, foi o suficiente para que lhe tirassem a vida.

Entre o turbilhão de notícias que são compartilhadas diariamente sem nenhuma veracidade, podemos nos deparar a qualquer momento com a informação que existe uma bonificação exorbitante para os beneficiários do programa Bolsa Família (e que deixou os funcionários da Caixa Econômica em apuros) , frases atribuídas à políticos e outras personalidades, associação da onomatopeia rá-tim-bum às forças ocultas e inúmeros supostos casos de arrastões e tiroteios. Essas são apenas algumas das mais compartilhadas.

Faço um apelo aqui para aqueles que tiveram a paciência de ler esse artigo até este ponto. Por favor, se receberem uma publicação informando sobre doações de cadeiras de rodas, não liguem a cobrar para o número que está nela, Dona Vilma agradece.

Em uma época que nos proporciona uma maior fluidez e velocidade de comunicação, prudência e bom senso se tornam essenciais para que venha a existir um vasto questionamento sobre a veracidade do que lemos, vemos e ouvimos nas mídias sociais, principalmente no uso do Whatsapp. A ferramenta está dominando seus usuários e a palavra COMPARTILHAR está sobrepondo e ocultando a  QUESTIONAR, sua arqui rival nessa guerra que se trava nas telas dos celulares desse meu Brasil varonil. Guerra essa onde podemos notar a verdade tentando desesperadamente se auto-curar de sua cegueira, o bom senso está caído ao chão, ferido mortalmente no peito, e a razão…. Ah, a razão! esta se encontra paraplégica tentando desesperadamente ligar para Dona Vilma.

Márcio Trindade é analista de suporte pleno em T.I e atua na área de informática e telecomunicações. Márcio Trindade é colunista semanal do Bahia Comenta.

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