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Jorge Solla: O que fazer?

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 Após a derrota eleitoral que o PT e toda a esquerda amargou nas eleições deste ano, urge a necessidade de acelerar e acalorar os debates, autocríticas e reposicionamentos necessários para reconstruirmos o projeto partidário e retomarmos a credibilidade e confiança da maioria da população. O tempo e a forma que conduzirmos este processo irá ampliar ou reduzir as chances de frearmos a onda conservadora e neoliberal que ameaça o futuro de nosso país.

A realização do mais vitorioso governo de esquerda que o Brasil já teve, o apoio popular reflexo de um processo de inclusão social inédito e a autoestima elevada com relevância internacional que ganhamos “subiu à cabeça” de muitos dos nossos. Brasil nos trilhos, o que poderia dar errado? “O anzol da direita fez a esquerda virar peixe”, vaticinava o rapper Criolo em 2014, quando gozávamos mais uma vitória eleitoral. E foi assim que, associando os ataques da direita, vaidades e arrogância de alguns, com os “podres poderes” de outros, chegamos onde estamos.

Fomos fisgados pela fábula da conciliação. Teve petista acreditando que a Globo tinha virado parceira, que a FIESP aderiu ao nacional-desenvolvimentismo, que não haveria porque temer os banqueiros, se lucravam tanto. E foi confiando nessa elite que decidimos enfrentar a crise internacional concedendo desonerações, subsídios e privilégios a setores da economia que não investiram um centavo, lucraram muito e ajudaram a afundar o país. O castelo de areia deste arranjo de classes se desfez no efêmero instante em que o bolo da arrecadação pública parou de crescer.

As commodities despencaram, a China pisou no freio, a nossa política anticíclica de enfrentamento da crise, a Nova Matriz Econômica, fracassou por erros graves de execução, como a já citada desoneração bilionária que não resultou em mais investimento. Ao fim, a conta não fechava: ficou difícil manter os avanços sociais conquistados e ao mesmo tempo continuar viabilizando os gigantescos lucros dos rentistas e da elite econômica brasileira no patamar que sempre tiveram.

Na política também tentamos conciliar o inconciliável. Trouxemos a direita para dentro do governo. Irmanamos com partidos fisiológicos que em nada comungavam com o nosso projeto de país e estiveram conosco apenas pelos cargos e verbas. Dilma chegou ao cúmulo de entregar a articulação política do governo a Michel Temer e Eliseu Padilha. O governo tentou manter a hegemonia política no executivo e legislativo fazendo concessões progressivas ao PMDB e aos partidos do “Centrão”.

Em vez de viabilizar o surgimento de novas forças e ampliar o campo da esquerda, fortalecemos toda a aristocracia conservadora que sorria sem jeito, abraçava de lado e só engolia o PT porque não tinha mesmo opção. Entregamos os anéis para ter uma maioria ilusória, que não possibilitou a aprovação de nenhuma reforma – umazinha sequer – e por vezes até criou problemas de governabilidade. Não fizemos a reforma tributária, nem a política, tão pouco a dos meios de comunicação, essenciais para mudar a estrutura do estado brasileiro e desequilibrar o poder da elite econômica do país.

Relegamos a segundo plano a única conciliação real, a com o povo trabalhador. Em vez de pautar plebiscitos e ir para o embate de opiniões na sociedade, optamos pela via das malfadadas concessões. Por fim, o pior: o PT achou que poderia entrar no clube do financiamento privado empresarial de campanha e sair incólume, como os demais sempre fizeram.  Que seria bem aceito no banquete da elite, poderia jogar conforme as regras sempre vigentes; que deixariam que o PT continuasse a ganhar todas as partidas. Os donos da bola estavam ficando cada vez mais insatisfeitos. Mais cedo ou mais tarde iriam apelar para o “tapetão”!

Quando tocávamos os corações dos brasileiros, faltou usar o mais importante espaço de comunicação direta com a sociedade, as eleições, para verdadeiramente debater sobre os temas do país. Faltou dialogar sobre o porquê devemos ir à luta por um projeto de país, sobre como temos o sistema tributário mais injusto do mundo, sobre como não dá mais para manter um sistema da dívida com juros que corroem 45% de tudo que pagamos de impostos, sobre a importância para a democracia de reduzir o poder do dinheiro na política e de acabar com o oligopólio da comunicação com regulação econômica.

Nossas administrações chegaram a ser extremamente criativas e ousadas, gerando inovações nas principais políticas públicas em diversas áreas, especialmente na saúde, educação e assistência social. Gestadas inicialmente nos nossos governos municipais, foram incorporadas nas agendas estaduais e nacional com sucesso. Mais recentemente perdemos a criatividade e a ousadia e a pauta do ajuste fiscal passou a ser prioritária, inviabilizando ampliar as conquistas sociais ou mesmo gerando retrocesso.

Fomos nós que construímos um país mais inclusivo, implementamos políticas que deram condições para a melhoraria da vida de milhões de brasileiros. Nossos acertos colocaram o Brasil na rota da construção de um estado de bem-estar social: o crescimento controlado do gasto público financiou a maior redução de desigualdades sociais em curto prazo registrada no planeta. Veio a crise e a elite de nosso país de pronto apontou para a redução dos gastos sociais como a única alternativa para vencer um inevitável processo de ajuste.

Diante desta pressão, ainda que respaldada por uma recente vitória nas urnas, a presidente Dilma optou por uma malfadada última cartada de conciliação com esta elite, nomeando Joaquim Levy e sua pauta contracionista para a Fazenda. Resistimos, criticamos, fomos para o embate. A elite achou a ortodoxia liberal de Levy era muito pouco e percebeu que não conseguiria, com o PT, aprovar medidas mais agressivas. Infelizmente, nossos erros abriram o flanco que eles precisavam para executar o golpe. Com Temer-Meirelles, abriram a porteira para regressões arbitrárias, como a PEC 241 (agora 55 no Senado).

Mas a história é dinâmica, e a agenda da direita não se sustentará nas urnas por muito tempo. A reconquista do voto e das ruas virá com nosso envolvimento com os movimentos sociais e com as lutas dos trabalhadores, como a luta pela preservação dos direitos sociais e trabalhistas, a resistência à PEC 241, à terceirização ampla, geral e irrestrita, à entrega do Pré-Sal e toda a pauta em curso pelo governo golpista. Nós temos lado. Em todos esses anos, se nossos erros nos impediram de fazer mais, ninguém pode nos acusar de retrocessos.

A retórica da grande imprensa vitaminada por um judiciário partidário que tentou criminalizar o PT já agora começa a ganhar sinais de fadiga. Como sustentar que o PT é uma “grande quadrilha” quando em nosso governo teve ministro caindo por uma tapioca de R$7,60, enquanto José Serra recebeu R$ 23 milhões em contas na Suíça e nada acontece? Aécio Neves é o campeão em delações na Lava Jato. Que falácia é essa de que o PT assaltou o país, quando foi quem mais endureceu a lei contra a corrupção – instituindo mecanismos como a delação premiada –, enquanto agora a direita se une para tentar mais uma vez aprovar anistia para Caixa 2, num movimento de autoblindagem. Não é por acaso que nenhum companheiro do PT é acusado de Caixa 2. Transformaram o financiamento privado empresarial para as campanhas do PT em corrupção. Todos eles (os representantes da elite nacional) serão anistiados por terem feito Caixa 2 e os do PT condenados por terem recebido doações eleitorais (oficiais ou não) de empresas privadas envolvidas em corrupção.

Voltaremos! E quando voltarmos não haverá mais espaço para acordos que não passem unicamente pelo objetivo de construir uma sociedade mais justa e solidária num projeto de estado de bem-estar social. Olhando para dentro, o PT precisará de mudanças em sua estrutura para inovar nos mecanismos de diálogo interno e com a sociedade. O PT não é meu, do Lula e da Dilma. Nossa máquina partidária infelizmente enferrujou, deformou e enrijeceu. Até as decisões sobre candidaturas em eleições passou a ser tomada pelo dirigente do governo com o consentimento submisso da direção partidária e a aprovação por inércia.

Fazer críticas às decisões e políticas de nossos governos passou a ser visto como defecções a serem repugnadas. O exercício da crítica construtiva, para corrigir rumos, aperfeiçoar as políticas públicas praticadas e fortalecer nossas administrações passou a ser visto como ameaças. Muitas vezes, e em muitos casos, nossa militância foi expulsa dos espaços de gestão e substituída por pessoas sem compromisso político com nosso projeto, nem competência técnica para fortalecerem a gestão, mas submissos aos desejos imediatos do governante de plantão. Alguns guindados a condição de dirigentes públicos representam a antítese da política do PT para a área sob sua responsabilidade. Muitos companheiros e companheiras militantes foram expropriados do sentimento de pertencimento ao PT que tanto nos identificou, orgulhou e uniu historicamente.

Mesmo assim cabe destacar que nenhum outro partido sobreviveria aos ataques proferidos por tantos anos, com o massacre midiático e institucional sofrido. Somente o PT com sua história, trajetória de raízes populares fortes e capilaridade nos movimentos sociais conseguiu este feito. Precisamos reativar o debate dentro da esquerda brasileira para atualizarmos um programa mínimo que possa ser assumido pelo nosso partido e por nossos principais aliados.

O PT é e tem de ser cada vez mais de todos os brasileiros que sonham com um Brasil mais justo e não apenas de um grupo circunstancialmente majoritário. Nossas decisões precisam passar por consultas amplas, nossos debates não podem ficar restritos aos filiados. O partido precisa ser aberto e transparente. Nossas chapas precisam garantir espaço a candidaturas de todos os segmentos, inclusive das mulheres e dos jovens, apostando na renovação de quadros. Abrir mão do exclusivismo não significa perder protagonismo. Precisamos menos decisões nas mãos de poucos e mais frentes amplas! Nesse sentido, conclamamos todos os companheiros a cerrarmos fileiras na construção do processo de Congresso do partido viabilizando a unidade interna indispensável para enfrentarmos a atual conjuntura e os embates que virão.

Jorge Solla é deputado federal, graduado em Medicina, Mestre em Saúde Coletiva e Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Secretário Municipal de Saúde de Vitória da Conquista (1999 a 2002), Secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (2003 a 2005), Secretário da Saúde do Estado da Bahia (2007 a janeiro de 2014) e é médico pesquisador da Universidade Federal da Bahia.

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